O Rio Grande do Sul poderá registrar um momento histórico no tradicionalismo gaúcho nos próximos meses. A técnica de enfermagem e estudante de Radiologia Bruno Pradella Machado, de 25 anos, do CTG Quero-Quero, de São Jerônimo, iniciou a trajetória que poderá levá-la à disputa da faixa de 1ª Prenda do Rio Grande do Sul.
No próximo fim de semana, Bruno participa do Concurso Regional de Prendas da 2ª Região Tradicionalista, em General Câmara. Caso avance nas etapas classificatórias, estará credenciada para disputar o título estadual, tornando-se uma das primeiras mulheres trans a participar da competição promovida pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG).
A ligação com o tradicionalismo começou ainda na infância. Filha de uma família tradicionalista, Bruno frequentava eventos com os pais e integrou as invernadas artísticas desde cedo.
"Meu contato com o mundo tradicionalista começou muito cedo. Minha mãe me levava para os eventos e o meu pai também sempre me incentivou. Minha família inteira é tradicionalista. Tenho um tio que foi patrão de CTG durante muitos anos, minha irmã dançava e eu também participei das invernadas desde criança", relembra.
Ela permaneceu nas atividades tradicionalistas até 2019. Ao completar 18 anos, decidiu se afastar para viver o processo de transição de gênero e concluir a formação como técnica de enfermagem.
"Acabei parando porque não me identificava mais como homem. Fiz a minha transição, concluí meu curso técnico de enfermagem e me afastei da vida tradicionalista por um período. Em 2025, saíram minhas documentações e passei a ser oficialmente registrada como mulher", conta.
O retorno ao CTG Quero-Quero aconteceu após uma conversa com a diretora cultural da entidade, quando manifestou o desejo de participar da ciranda de prendas.
"Falei que tinha interesse em participar da próxima ciranda da casa. A diretora cultural conversou com o patrão do CTG e fui nomeada prenda. Desde então, sou a primeira prenda adulta da história do CTG Quero-Quero", afirma.
O patrão do CTG Quero-Quero, Marcelo Pagini, destaca que a candidatura foi recebida com naturalidade pela entidade. Segundo ele, apesar de alguns questionamentos iniciais, prevaleceu o respeito.
"Encaro isso de forma muito tranquila. Quando a Bruno foi aceita como prenda do CTG, houve um burburinho inicial. Algumas pessoas questionaram, principalmente as mais antigas, mas chamei todos para conversar e expliquei que precisamos respeitar as pessoas. Essa é uma questão dela, não nossa. Cabe a nós respeitar", afirma.
Para Pagini, a participação de Bruno também representa uma oportunidade para ampliar o debate sobre inclusão e combater o preconceito.
"Respeito cada um. Cada pessoa faz o que entende ser melhor para a sua vida. Não compete a mim julgar ninguém. Muitas vezes as pessoas exigem respeito, mas não respeitam o próximo. Isso é algo que precisamos mudar", conclui.
Agora, Bruno representa o CTG Quero-Quero na etapa regional do concurso e busca uma classificação que poderá levá-la ao concurso estadual de prendas, em uma trajetória que poderá marcar a história do tradicionalismo gaúcho.