Ajuste na tabela de fretes faz produtores optarem por transporte próprio
Cerealistas passaram a comprar caminhões para reduzir a dependência de prestadores do serviço
Publicado em 28 de julho de 2018
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A imposio da tabela de preos mnimos do frete, em vigncia no pas desde 30 de maio, provocou o efeito colateral de levar cooperativas e cerealistas a mudarem seus planejamentos.

Muitas delas passaram a avaliar ou j partiram para a aquisio de frota prpria para diminuir ou eliminar a dependncia da terceirizao, mesmo que isso, em alguns casos, signifique engavetar metas antigas em outras reas. Nas ltimas semanas, empresrios do agronegcio vm adquirindo veculos, pesquisando linhas de crdito nos bancos ou, pelo menos, agilizando estudos de viabilidade para investimento em equipamentos de transporte.

o caso, por exemplo, da cerealista Vaccaro Agronegcios, de Erechim, que comprou trs caminhes neste ms, ampliando a frota prpria em 10%. O scio-proprietrio, Carlos Vaccaro, diz que o aumento dos custos com o frete foi fator determinante para a deciso e afirma que a opo se tornou extremamente vantajosa. Acrescenta, ainda, que se a tabela perdurar, a meta elevar em at 80% a capacidade de transporte da empresa.

O gatilho para este movimento que levou cerealistas e cooperativas a estudarem a viabilidade de ter suas frotas foi o encarecimento do frete para o escoamento da produo agrcola, constatado aps a implantao da planilha de preos pelo governo federal como condio para o encerramento da paralisao dos caminhoneiros. Nas ltimas semanas, os preos do frete saltaram 29%, em mdia, segundo levantamento da assessoria econmica da Federao da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul).

Se analisado o perodo de um ano, entre julho de 2017 e julho 2018, o valor do transporte de gros no Estado teve um reajuste mdio de 44%. Como exemplo, o transporte de uma tonelada de gros de Cruz Alta para o Porto de Rio Grande, que custava R$ 57,00 h um ano e R$ 60,00 em maio deste ano, passou para R$ 82,00 com a vigncia da tabela.

Em junho, a alta no frete provocou at a paralisao de negcios no interior do Estado. Esta pisada no freio ficou demonstrada nos dados da exportao do agronegcio gacho. Segundo a Farsul, a comercializao do complexo soja, principal item da pauta, recuou 35,38% em volume e 37,47% em valor no ms passado, em relao a maio.

A situao lamentada pelo presidente da Associao Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), Bartolomeu Braz. Nas ltimas semanas, perdemos a oportunidade de nos beneficiar de um cenrio excelente, com o cmbio se valorizando e com a briga comercial entre Estados Unidos e China, constata. Segundo o dirigente, o enfraquecimento nos negcios j retarda a compra dos insumos e provocar atraso no plantio da prxima safra de vero, que, possivelmente, ser feito com uso de menos tecnologia.

Braz alerta ainda que, enquanto no se define a nova planilha do frete (leia mais nas pginas centrais), no h parmetros para os produtores conseguirem fechar suas vendas futuras e operaes de troca para o ciclo de 2018/2019. Est tudo parado por conta de um tabelamento arcaico, que j foi testado e no deu certo, critica. O dirigente da Aprosoja Brasil confirma que a compra de frota prpria por agentes do agronegcio vem sendo cogitada e colocada em prtica em diversos estados. O produtor sabe muito bem o que est fazendo. Trata-se da preservao do seu negcio, analisa.

O presidente da Associao das Empresas Cerealistas do Estado (Acergs), Vicente Barbiero, estima que, atualmente, 30% do volume de gros transportado pelas prprias cerealistas e outros 70% por empresas transportadoras ou por cooperativas de caminhoneiros autnomos. Mas acredita que este quadro pode se inverter entre 2018 e 2019 se a tabela do frete continuar em vigor e, sobretudo, se no equilibrar bem os interesses de todas as partes.

Alm disso, Barbiero diz que uma inquietao surge em meio a este novo cenrio. Muitas empresas no vo dar andamento a projetos de construo de armazns, j que no haver condies financeiras para atender todas as reas. algo que preocupa porque j temos um grande dficit de armazenagem. No ano passado, tivemos que armazenar soja a cu aberto, lembra. Em vez de o produto estar armazenado, vai estar em cima de caminhes rodando nas estradas j sobrecarregadas, acrescenta.

O vice-presidente da Federao das Cooperativas Agropecurias do Rio Grande do Sul (Fecoagro/RS), Darci Hartmann, alerta que, se o setor do agronegcio investir pesado em logstica, a tendncia de uma superoferta de caminhes no pas e, em consequncia, grande ociosidade nos perodos de entressafra. Na safra, o frete aumenta. Na entressafra, os valores caem. a lei do mercado, que soberano. Como vai ficar a partir de agora com esta tabela institucionalizada pelo governo?, questiona. Ao meu ver, foi construda uma soluo pior do que era o problema, avalia.

Fonte: Bruna Casali / Jornalismo/BarrilFM com informações CP
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