Sem regra, pré-campanha vira vale-tudo eleitoral
TSE estipula a data de 16 de agosto para o início oficial do período
Publicado em 14 de abril de 2018
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Na primeira eleio presidencial com 35 dias de propaganda eleitoral na TV e no rdio, a maioria dos pr-candidatos ao Palcio do Planalto tem ignorado os prazos legais e colocado suas campanhas na rua sem qualquer fiscalizao ou prestao de contas. Nesse vale tudo eleitoral, os concorrentes s no tm pedido voto, o que, na prtica, no impede a exposio de seus projetos e at mesmo a realizao de comcios, caravanas e anncios em outdoors. E sem levar em conta o teto de gastos, de R$ 70 milhes.

A antecipao informal da campanha vai contra a determinao do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que estipula a data de 16 de agosto para o incio oficial do perodo no qual os concorrentes podem fazer propaganda eleitoral nas ruas e na internet. O mesmo calendrio, no entanto, no estipula regras para a fase de pr-campanha, o que abre brecha para os postulantes montarem estruturas profissionais de assessoria e marketing, usarem jatinhos (ou cota parlamentar para pagar passagens) e participarem de atos eleitorais.

A menos de seis meses da eleio, o ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva, condenado e preso na Lava Jato, e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ) foram os pr-candidatos que at aqui mais tiveram contato com os eleitores em eventos pblicos que nada diferem dos realizados na campanha oficial. Nas caravanas que fez pelo Pas, a equipe de Lula, por exemplo, contou com um aparato profissional, formado por seguranas, assessores, fotgrafos, polticos, tcnicos para montagem de palco e som e transporte assegurado por nibus e avies fretados. No dia em que foi preso, 7 de abril, o petista ainda discursou por 55 minutos do alto de um carro de som.

O roteiro de Bolsonaro tambm segue padres dignos de uma campanha. Na vspera de qualquer viagem, o parlamentar avisa seus apoiadores pelas redes sociais sobre o horrio em que vai desembarcar no aeroporto e os compromissos agendados. A estratgia faz com que o parlamentar seja recebido nas cidades com carros de som, fogos de artifcios e outdoors espalhados pelas ruas, o que vedado pela Lei Eleitoral.

Mas, neste caso, a punio s pode ser aplicada a partir de 16 de agosto - multa de R$ 5 mil a R$ 15 mil por dia. Brecha que 'comemorada' por Bolsonaro nas redes sociais. Em seu perfil no Facebook, o deputado agradece a quem instala outdoors com seu rosto - os exemplos mais recentes so de Maratazes (ES) e Ch Grande (PE). Mas o mesmo perfil no cita, por exemplo, como as viagens so pagas, se com a verba da Cmara dos Deputados ou com recursos do Fundo Partidrio, seja do PSL, atual sigla do deputado, ou do PSC, de onde se desfiliou ms passado.

O dinheiro usado para custear a pr-campanha de Lula, segundo o PT, vem da arrecadao de filiados pela internet e tambm do Fundo Partidrio. A legenda no revela os custos. Tambm sem informar os recursos j empregados em suas viagens, o senador lvaro Dias, do Podemos, visitou ao menos 11 cidades no ms passado, em oito Estados, como Rio Grande do Sul, Gois e Cear. Mesmo com uma estrutura pequena - afirma viajar s com o assessor do partido e em voos de carreira -, Dias registra cada passo seu de olho na campanha. No dia em que o Supremo Tribunal Federal negou o habeas corpus preventivo a Lula, por exemplo, o pr-candidato foi Avenida Paulista, em So Paulo, gravar um depoimento em defesa da priso em segunda instncia.

Preocupado em se posicionar como austero, o agora ex-governador paulista Geraldo Alckmin, presidente nacional do PSDB, tem optado por voos comerciais e por viajar sozinho, sem assessores. Nos bastidores, porm, uma equipe experiente formada por marqueteiros e jornalistas grava todas as suas falas para abastecer as redes sociais do tucano, que tambm afirma pagar os gastos com verba do Fundo Partidrio.

As viagens de cunho eleitoral, no entanto, comearam antes mesmo de Alckmin deixar o cargo. Assim que assumiu o partido, em dezembro de 2017, o tucano j passou a dividir a agenda de governador com a de lder partidrio, participando de reunies quase semanais em Braslia. No primeiro dia til sem mandato, foi com outros cinco pr-candidatos ao Planalto a um evento sobre poltica em Porto Alegre.

Controle

"O que deveria ser feito era liberar a pr-campanha e criar um controle sobre os gastos feitos nessa poca. Dessa forma, os candidatos estariam submetidos fiscalizao desde o comeo", disse ao Estado o ex-ministro do TSE Henrique Neves. Para ele, a pr-campanha um "perodo complicado". "No pode proibir de discutir poltica, mas quando algum comea a usar carro de som, outdoor, jornal e outros meios que demandam dinheiro, isso pode ser examinado pela Justia como abuso de poder econmico."

Ciro Gomes (PDT), Guilherme Boulos (PSOL) e Manuela D'vila (PCdoB) tambm tm viajado depois de serem lanados por seus partidos. O TSE informou que, de acordo com a legislao eleitoral em vigor, "no existem gastos de pr-campanha".

Financiamento pblico e privado

Sem fiscalizao nem regras claras, a pr-campanha tem revelado um abismo entre os concorrentes ao Planalto no que diz respeito estrutura usufruda por cada um. Enquanto o empresrio Flvio Rocha (PRB) se desloca pelo Pas em um jatinho da sua empresa, a Riachuelo, ou em aeronaves de amigos, a ex-ministra Marina Silva (Rede) faz os trajetos em avio de carreira ou nibus e, de acordo com o local, se hospeda em casa de aliados. Segundo a assessoria de Rocha, ele dispe, na condio de presidente da empresa, de um crdito de horas das aeronaves para uso pessoal. "O empresrio tem exercido esse direito, outorgado pelos acionistas e previsto em seu contrato. Rotineiramente, quando o limite desse crdito ultrapassado, o executivo devolve a diferena."

Ao Estado, Marina disse que j esteve em seis Estados "andando de avio de carreira, pegando voos s cinco da manh, porque so mais baratos, conversando com as pessoas nos aeroportos, pegando carro para fazer deslocamento de um municpio para o outro". "Vou continuar fazendo minha andana, inclusive com as dificuldades de um partido que no ter o dinheiro bilionrio dos fundos partidrios do PT, PMDB, PSDB", disse a pr-candidata.

O presidente da Cmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), usou avies da Fora Area Brasileira (FAB) para viajar pelo Pas e participar de compromissos muitas vezes estranhos a seu cargo. Aps o lanamento de seu nome, Maia passou a viajar com recursos do DEM - a sigla aluga um jatinho quando necessrio e avalia investir cerca de R$ 1 milho at agosto, quando a candidatura ser ou no confirmada. "A rigor, o candidato em pr-campanha no presta conta e no d satisfao de nada. Quem est no cargo e disputa reeleio tambm no tem restrio nessa fase", afirmou o advogado Alberto Rollo Filho, especialista em direito eleitoral.
Fonte: Bruna Casali / JornalismoBarrilFM com informações CP
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